Do bairro ao centro: estratégias de segurança comunitária para regiões vulneráveis de Ribeirão Preto

Por Marcelo Módulo – Estrategista em Segurança Pública e Consultor em Inteligência Operacional

1. O cenário da vulnerabilidade urbana em Ribeirão Preto

Ribeirão Preto é uma cidade que cresce em ritmo acelerado, mas esse avanço não acontece de forma uniforme. Em muitos bairros periféricos, a população convive com insegurança crônica, causada por furtos recorrentes, vandalismo, tráfico, ausência de rondas e até omissão do poder público. Regiões como Campos Elíseos, Vila Albertina, Jardim Progresso e Quintino Facci são exemplos de áreas que, apesar da força comunitária, enfrentam desafios graves de segurança.

Essas localidades, por vezes esquecidas nas estratégias formais de policiamento e monitoramento, acabam sendo os pontos mais frágeis da malha urbana. E o problema não fica restrito aos bairros: a insegurança migra do bairro ao centro, criando uma cadeia de efeitos negativos na qualidade de vida da cidade como um todo.

Bairro como Campos Elíseos, que tem uma grande extensão territorial e populacional mantém, segundo a Polícia Militar o registro de maior número de roubos em Ribeirão Preto, enquanto o Quintino Facci, região do 5º Distrito Policial, é responsável por 29,7% dos homicídios registrado em Ribeirão Preto.


2. Segurança comunitária: o modelo que funciona de dentro para fora

Diferente da segurança baseada apenas em presença policial, a segurança comunitária atua com foco em prevenção, escuta ativa e corresponsabilidade. É a construção de uma rede entre moradores, forças de segurança, comércio local, escolas e lideranças sociais.

Esse modelo já mostrou bons resultados em cidades como Belo Horizonte, Diadema, Medellín e Recife. Com ações simples como canais diretos com a GCM, formação de núcleos por bairro e uso de grupos de comunicação locais, o índice de crimes caiu significativamente, e a confiança da população aumentou.

Em Ribeirão Preto, há um vazio de coordenação nas regiões periféricas — e é justamente esse vazio que pode (e deve) ser ocupado por iniciativas estruturadas e adaptadas à realidade local.

Estudos publicados pela revista Paidéia apontam que regiões periféricas ressaltam sentimentos de exclusão social indicando uma carência de políticas públicas eficazes nessas áreas. Mesmo que se tenham investimentos em segurança, podemos identificar a falta de estratégias mais específicas e coordenadas para atender às particularidades das regiões periféricas, que podem ser preenchidas pela Segurança Comunitária.


3. Propostas práticas para Ribeirão Preto

A seguir, um conjunto de ações estratégicas e viáveis que podem ser implementadas com apoio público ou de forma colaborativa:

🔹 Núcleos de Segurança Comunitária por Bairro

Cada bairro com alta vulnerabilidade deve contar com um núcleo formado por GCM, representantes de escolas, comerciantes, conselho tutelar e líderes comunitários. Esse grupo pode planejar ações, relatar ocorrências, priorizar rondas e ajudar na mediação de conflitos.

🔹 Protocolo Comunitário de Ocorrência

Desenvolver um guia visual e simples, com orientações práticas sobre o que fazer em caso de furto, invasão, agressão, vandalismo ou movimentações suspeitas. Esse protocolo pode ser entregue impresso em escolas, postos de saúde e comércios.

🔹 Rondas Comunitárias Inteligentes

Implantar patrulhas móveis que atuem em horários e locais estratégicos, com acompanhamento do Centro de Controle Operacional (CCO) e feedback direto da população via WhatsApp ou app.

🔹 Formações locais em percepção de risco

Oferecer cursos básicos para líderes de bairro, professores e comerciantes sobre como identificar e comunicar sinais de risco, uso correto dos canais de denúncia e prevenção comunitária.


4. Tecnologia acessível como aliada

Mesmo em regiões de baixa renda, a tecnologia pode ser adaptada à realidade local com excelente custo-benefício. Algumas propostas:

  • Aplicativo de denúncia anônima por bairro, com interface simples e conexão com o CCO
  • Câmeras comunitárias com acesso remoto, ligadas à GCM e instaladas em pontos críticos (escolas, entradas, áreas de lazer)
  • Grupos oficiais de WhatsApp/Telegram com moderação e coordenação da GCM e subprefeituras
  • Painéis de mapa de calor por denúncia, com dados públicos atualizados semanalmente para planejar ações

5. A força da integração pública

A segurança comunitária exige que órgãos públicos deixem o papel de espectadores para atuarem como facilitadores e agentes de integração.

Em Ribeirão Preto, é possível formar uma Rede Integrada por Bairro, coordenada por uma secretaria específica ou pela própria GCM, com envolvimento de:

  • Secretaria de Segurança
  • Secretaria de Educação
  • Ministério Público
  • RP Mobi (para iluminação, urbanismo e monitoramento de imagens)
  • Conselho Tutelar e Assistência Social
  • Centro de Controle Operacional (gerenciamento das câmeras públicas e privadas e ações de controle ao crime)

Esse grupo pode se reunir mensalmente e usar dados reais para orientar as decisões e validar estratégias.


Conclusão: segurança não se impõe, se constrói

A verdadeira segurança não nasce da repressão, mas da presença ativa, da escuta e da inteligência tática aplicada à realidade local. Embora Ribeirão Preto seja considerada uma das cidades mais seguras do país em termos gerais, conforme o Anuário 2023 Cidades Mais Seguras do Brasil, essa segurança não é percebida de forma uniforme em toda a cidade. Regiões periféricas, como Campos Elíseos, enfrentam desafios significativos, sendo líderes em ocorrências de roubo, conforme levantamento da Polícia Militar.

A Segurança Comunitária se destaca como modelo nacional de segurança, pois, ressalta justamente as necessidades específicas de cada bairro valorizando seus moradores e identificando seu principais pontos de insegurança, podendo assim os agentes da segurança pública, secretarias e órgão públicos judiciários atuarem de forma integrada a elaborarem ações contundentes no combate escalado do crime e consequentemente no aumento do sentimento de acolhimento da comunidade pelo estado e município e na sensação de segurança local.

Com investimento mínimo, estratégia clara e liderança compartilhada, é possível inverter a lógica do abandono e transformar regiões vulneráveis em territórios protegidos, respeitados e valorizados.

Sobre o autor:

Marcelo Módulo é consultor em segurança pública e patrimonial, CEO da EVOKE Segurança Privada, especialista em gestão de riscos, inteligência urbana e planejamento tático. Atua em projetos com usinas, empresas, órgãos públicos e imprensa especializada, com foco na aplicação prática da segurança como ferramenta de transformação social.

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Marcelo Modulo





Especialista em segurança patrimonial e pública. Atuo com consultoria estratégica, liderança operacional e desenvolvimento de soluções inteligentes para empresas, condomínios e instituições. Minha trajetória une técnica, experiência prática e uma visão moderna sobre gestão de risco e proteção profissional.

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